História
do Bairro Novo Mundo
Depoimento de Clementina Stenzowski, de uma família
pioneira na história do bairro Novo Mundo
Na casa de lambrequins, bem cuidada, orgulho da família,
Clementina Stenzowski*, lembra dos armazéns Novo Mundo
e Velho Mundo, do tempo de seu avô Alberto Stenzowski,
pioneiro do bairro. Diz das pousadas existentes, dos colonos
pagando pedágio, e das “viagens” ao centro
de carrocinha.
(* este é o nome de solteira da senhora Clementina).
" Sou Clementina Stenzowski
Neta de Alberto Stenzowski, pioneiro deste bairro. Vovô
veio aos 14 anos da Europa. Morou em Thomaz Coelho e na Contenda,
antes de chegar aqui pela primeira vez, no século passado.
Ele se estabeleceu no bairro com um armazém que chamou
Novo Mundo, já mencionado nos almanaques comerciais
de 1897.
Como acha-se que os negócios não iam tão
bem mudou-se para Contenda, novamente. Arrendou o armazém
para o espanhol Joaquim Font, em 1908.
Alberto Stenzowski ficou na Contenda um par de anos. Quando
voltou, já amigo de Joaquim Font, resolveu deixá-lo
com o ponto do armazém Novo Mundo.
Compadre do espanhol, fundou outro negócio e chamou-o
de Velho Mundo.
Funcionava aqui, na casa onde moramos.Joaquim Font trabalhava
com ferragens e erva-mate. Vovô trabalhava com secos
e molhdos adquiridos do Emílio Romani, restaurante
e pousada. Esta era muito frequentada pelos colonos que, vindos
da Lapa, Marienthal e outros sítios, aqui pernoitavam.
Havia muitos quartos. Um pátio grande para as carroças
e cavalos. Eu me lembro do terreiro de casa, quando era criança,
cheio de carroças.
Com a morte de vovô, papai herdou o Velho Mundo. Deu
continuação aos negócios da família.
Font morreu e não deixou descendência no bairro.
Seu armazém foi fechado. Passamos a ser proprietários
– como até hoje – da Casa Stenzowski, que
virou patrimônio, construída em 1913. Bons tempos
aqueles.
Lembro da capelinha do Portão. Ficava dentro de muros
altos, pois estavam fazendo a atual igreja do Bom Jesus.
Lá eram feitos os batizados, as primeiras comunhões,
os casamentos. A Igreja da Sagrada Família –
aqui do Novo Mundo – é muito recente, desmembrada
da Matriz.
O Portão, penso, era posto de cobrança de taxas
para colonos, na linha do trem, conforme contava minha mãe.
Os vizinhos eram distantes. Daí termos muitas reuniões
familiares da época. Como o povo se visitava.
Lembro dos Kowalski, seleiros, e dos Dudeck, alfaiates. Lembro-de
de meu avô materno, Francisco Krachinski, dono de uma
fábrica de palhões – para envolver garrafas.
Ele fornecia palhas para forragem de estábulos e abastecia
do mesmo material os quartéis da cidade.
Os Krachinski moravam mais longe do centro. No Capão
Raso, no lugar que conheci como "O Fim do Macadame".
Lembro ainda dos vizinhos Gomes, Shier, Biscaia, Isfer, Zaleski.
Meus avós tinham caleça, carrocinhas, e com
elas íamos ao centro. Os bondes vieram depois.
O comércio sempre foi nosso forte aqui no bairro:
a fábrica Leão Júnior, a fábrica
de balas do Durval Ferreira, a Pharmácia Araújo,
a olaria do Klemtz.
O armazém Novo Mundo ficava no lugar do atual largo.
Demolido para ampliação da rua, dele só
temos lembranças."
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