História
do Bairro Portão
Na encruzilhada, o princípio de tudo
O Portão era o ponto de encontro do atalho que, vindo
de Campo Comprido, atravessava o Barigui, a Fazendinha, completando
a ligação entre o Caminho dos Campos Gerais
– região das atuais Ponta Grossa e Palmeira –
com o Caminho de São José, com destino a Paranaguá
– pelo caminho do Arraial, de traçado mais ou
menos parecido com o da atual BR-277 -, e São Francisco
do Sul – pelo antigo Caminho dos Ambrósios, de
traçado mais ou menos parecido com a estrada de Joinville.
O princípio da história do Portão –
escrito nas pegadas das mulas e dos tropeiros – está
em documentos raríssimos, do século XVIII, guardados
na Câmara Municipal, nos Arquivos de Curitiba.
Num livro recente, em 1975, o historiador Júlio Moreira,
pouco antes de morrer, descrevendo o caminho de Curitiba a
São José refere:
O caminho, no trecho dos Campos de Curitiba ea relativamente
bom, por seguir o divisor das águas dos rios Belém
e Barigui, em terreno ensolarado e sem qualquer acidente geográfico
de importância, que dependesse de conservação
por parte da Câmara de Vereadores.
Da mesma maneira não se conhece o local exato em que
existiu a primeira ponte e qual teria sido o trajeto percorrido
pelo caminho desde Curitiba até o rio Iguaçu.
É de se admitir que a amplidão dos campos facilitava
o tráfego dos viajantes por diversas trilhas sem que
se fixasse a nenhuma delas.
Somente a posse das terras circunvizinhas, transformadas
em sítios e fazendas, delineou o traçado do
caminho. Apareceram então os primeiros topônimos
identificadores dos locais de passagem: Pinheirinho, Xaxim,
Portão. Este último já em 1784, quando
o "sargento-mor Semeão Cardoso Pazes correspondia-se
com seu genro, o capitão Francisco de Paula Teixeira,
morador no Portão".
Aí era o ponto de encontro do atalho que, vindo de
Campo Comprido, atravessava o Barigui, a Fazendinha, completando
a ligação entre os dois caminhos, o de Campos
Gerais com o de São José, com destino a Paranaguá
e São Francisco. O nome "Portão" nos
traz a ideia de que nesse lugar existira um posto fiscal ou
de controle de passagem de animais procedentes da vila de
Curitiba e dos Campos Gerais.
Isto explica a resolução dos vereadores de
Curitiba, estabelecendo, em 1802, a pena de 6$000 e a condenação
de trinta dias de cadeia aos que levassem gados para os portos
de Morretes e do rio São Francisco, sem licença
do Juiz Ordinário.
No início do século XIX, a Câmara estabeleceu
novo caminho atendendo as novas necessidades de então.
Sala do Largo da Ponte (Praça Zacharias) juntamente
com o dos Campos Gerais, pela rua da Entrada (Emiliano Pernetta),
atravessava o alto da Bela Vista (onde até pouco tempo
existia o Museu Paranaense), seguindo para oste até
bifurcar-se de onde partia, um para o sul, pelo divisor das
águas, o caminho de São José e o outro
o poente o dos Campos Gerais. Esta bifurcação
está marcada até hoje pelo prédio do
antigo Engenho de erva-mate de Antonio Ricardo dos Santos,
mais tarde conhecido por Engenho do Banco, nas proximidades
da esquina da rua Bento Viana com Avenida Batel.
O Caminho seguia para o sul, com pequena sinuosidade, pouco
afastado para o oeste da atual Avenida República Argentina,
até o local em que se estabeleceu uma casa de pastos
para os carroceiros que vinham da Lapa e de São José
dos Pinhais. Era o negócio do polonês Pietruza,
que aí ficou por muitos anos.
Este local era conhecido, na época, pelo nome de "Graxaim".
Ficava do lado oposto onde atualmente funcionam o Grupo Escolar
"Presidente Pedrosa" e o Colégio Estadual
"Pedro Macedo". Daí em diante, continuava
na mesma direção da atual República Argentina,
passando pelo Portão, Novo Mundo, Xaxim, até
esbarrar no rio Iguaçu.
Em todo o seu trajeto era conhecido pelo nome de Caminho
Novo de São José.
O Ouvidor Geral Doutor Joaquim Teixeira Peixoto, em 1828,
proibiu a passagem de boiadas pelo caminho novo que vai desta
vila para a freguesia de São José, em que se
fex nova ponte, pela deterioração que elas causavam,
ficando para isso, franco o caminho velho (ruas Cajuru e Uberaba).
No Caso de desobediência, os donos das boiadas pagariam
cem réis por cada rês que passasse, devendo essa
multa ser aplicada nos consertos da ponte.
Em 1829, o coronel João da Silva Machado assim se
expressou sobre esta estrada: "Tem duas léguas
e três quartos, caminho de campo, só com o grande
embaraço que lhe fazia a passagem do rio Iguaçu,
que se acha com uma ponte de madeira de 142 braças
e um aterro de 120 braças, obra feita pelo povo da
dita freguesia, debaixo da administração do
capitão João Mendes Machado, faltando, somente,
para se acabar, mais de 50 braças de ponte e um pequeno
espaço de aterro, mas que está em vista, debaixo
da administração do dito capitão Mendes
Machado".
Obedecendo a rotina administrativa, o Governo Provincial
de São Paulo taxou tributos que deveriam ser arrecadados
anualmente nesse caminho. Foi orçado no mês de
março de 1835, em 1:000$000 e no ano seguinte, em 3:000$000,
como renda especial.
Mais tarde, já em nossos tempos, com a abertura da
avenida "República Argentina" e da estrada
de São José até Curitiba, pelo Uberaba
e Corte Branco, o caminho passou a ser conhecido pelo nome
de "Estrada Velha de São José".
O conflito entre os lavradores e os tropeiros – pelas
searas pisoteadas pelo gado – acaba determinando caminhos.
Surgem cercas e portões. O comércio de tropas
exige que a Câmara fiscalize o gado, para garantir as
invernadas de Curitiba a seu dízimo. Isto persiste
até a República, quando a Prefeitura –
já então existente – ainda mantém
um posto fiscal no bairro do Portão.
O grande marco da evolução do Portão
como bairro de Curitiba é o final do século
passado, quando a cidade já era povoada de imigrntes,
carroções, engenhos de erva-mate, e cortada
pela ferrovia imperial. O trecho ferroviário de Curitiba
a Paranaguá começou com a visita do Imperador
em 1880 e foi concluído em 1885, com a visita da Princesa
Isabel e do Conde D'Eu.
Em 1893, a estrada de ferro foi prolongada para o interior
– até Ponta Grossa -, pela Serrinha, Restinga
Seca e Palmeira, passando pelo bairro do Portão. Surgiu
a Cancela ferroviária.
Esta facilidade no tranporte de cargas vocacionou o bairro
de uma vez como ponto comercial e industrial.
O crescimento do Portão fez com que tivesse linhas
de bondes puxados por mulas já em 1910. Pertenciam
à firma South Brazilian Raylaws Ltda., sucessora inglesa
da firma local Companhia Ferro Carryl Curitybana de Santiago
Colle. A mesma Companhia havia introduzido os bondes puxados
a mula na cidade em novembro de 1887, inclusive com transporte
de cargas, e ponto final no Batel. E do Batel em diante ia-se
de carroção.
Em 1914, o Portão conheceu os bondes elétricos,
instalados dois anos depois de sua estréia na cidade.
A linha de bondes do Portão foi a última a
ser estinta, em 1952, no mês de junho, substituída
por frotas de ônibus, já de propriedade de Aurélio
Fressato que, em 1950, por Cr$ 1,00 – um cruzeiro –
ganhou o direito de explorar todo o transporte coletivo da
cidade.
As diferentes chácaras do bairro, os diversos armazéns,
as várias fábricas, não bastariam para
sedimentar a comunidade. Surgiu a Igreja. Ponto de encontro,
local de devoção, espaço comunitário,
polo aglutinador.
Primeiro a capela tosca, com pequena e primitiva imagem do
Bom Jesus, no lugar onde existiu o Cine Guarani, conforme
refere Dom Pedro Fedalto na obra "A Arquidiocese de Curitiba
na sua história". Depois, capela de barro e tijolos,
com a mesma antiga imagem, construída a partir de 28
de julho de 1907. Em 1916 começou a construção
da nova – e atual Igreja – em redor da mesma capelinha,
que ali permaneceu enquanto se erquiam os muros da futura
igreja. O impulso da construção aconteceu só
em 1920, quando o bispo Dom João Braga, preocupado
com a escassez de esmolas, nomeou nova comissão composta
de Pedro Zagonel, Attílio Brunetti, e José Bettega.
O telhado ficou pronto em 1923. Em 1928, deu-se a imagem do
Senhor Bom Jesus, colocada no altar mor, de impressionante
iconografia.
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